A cervejaria mais antiga
Edição de 07/2007
Sérgio de Paula Santos
A
cerveja é, possivelmente, a bebida mais antiga do homem, depois da água
e do hidromel. Certamente precedeu o vinho, pois a disponibilidade dos
cereais sempre foi maior que a da videira. A agricultura pensa-se que
tenha surgido 10 mil anos antes de Cristo, no Oriente Médio, na região
do Crescente Fértil, que se inicia no delta do Nilo, passa pelos atuais
Israel e Líbano até a bacia do Tigre. Escavações em todo o Oriente
Médio comprovam que a lavoura de cereais e a produção de cerveja sempre
se acompanharam.
Independentemente
da geografia, todos os povos da Antiguidade maltaram e fermentaram seus
cereais, dos egípcios, assírios e caldeus aos germanos e celtas, bem
como os africanos e os primitivos americanos.
O mais
antigo vestígio da cerveja que se conhece talvez seja o encontrado por
Jeremy Geller, em 1989, no Egito, a 750km do Cairo. Eram fragmentos de
cerâmica revestidos por uma substância de cor escura, que a
cromatografia identificou como uma mistura de cevada e açúcar, uma
indicação que o cereal fora fermentado e consumido. A avaliação pelo
Carbono 14 localizou o conteúdo dessas peças, de 5400 anos antes de
Cristo.
Entre
nós localizamos a primeira cerveja produzida no país em 1640, no
Recife, ao tempo da ocupação holandesa, produzida pelo cervejeiro Dirck
Dicx1
No
Rio da Prata, em Buenos Aires, a primeira cerveja foi produzida em
1740, pelo médico inglês Robert Young, como revelou a historiadora
Elena Studel2.
Na
maioria dos países da América Latina pode-se dizer que as primeiras
cervejas são de século XIX, fundadas por imigrantes anglo-saxões ou por
seus descendentes.
As
cervejas antigas, ao contrário das atuais, eram escuras e fortes,
chamadas por muitos de "pão líquido" e geralmente produzidas junto com
o pão, com os mesmos cereais e de alta fermentação.
Se não
podemos localizar a origem dessas cervejas primitivas, a cerveja
dourada e límpida, de espuma branca e abundante e baixa fermentação,
tem sua origem bem determinada. Foi produzida inicialmente pelo
cervejeiro alemão Joseph Groll, considerado o melhor cervejeiro de sua
época, na Bürgerliche Brauerei, em Pilsen (daí a denominação), na
República Tcheca, oficialmente em 5 de outubro de 18423. Na
realidade, Groll aperfeiçoou o processo de fermentação que já
desenvolvera, valendo-se das condições locais ideais, a água levíssima,
com baixo teor de Cálcio de Bubenc, o lúpulo de Zatec e a cevada clara
da Boêmia. A cervejaria de Pilsen, sobre a qual já falamos4, fundada em 1842, ainda existe e produz a famosa Pilsner Urquell (fonte original), cerveja que para muitos, nunca foi superada.
Também se
conhece a mais antiga cervejaria do mundo ainda em atividade, a
Weihenstephan, de Freising na Bavária, cuja cerveja é oficialmente
comercializada desde 1040.
Sua
história começa na realidade bem antes. Em 725 São Corbiniano
(Cornestone Weihenstephan) funda com 12 monges beneditinos um mosteiro
em Freising, onde teriam começado a produzir cerveja.
Documentos
de 768 comprovam a existência de plantações de cevada e lúpulo na
região, cujos proprietários cediam 10% de sua produção ao mosteiro. É
também dessa data a primeira invasão e destruição do Mosteiro de
Weihenstephan, que se repetiria em 955, quando foi novamente
reconstruído pelos monges.
Em 1040 o
abade Arnold consegue das autoridades de Freising a licença para
produzir e vender sua cerveja, nascendo assim oficialmente a Cervejaria
do Mosteiro de Weihenstephan, que na realidade já era produzida há mais
de três séculos…
Entre
1040 e 1463 o mosteiro foi saqueado e incendiado 4 vezes e passou por
um terremoto, sempre reconstruído. Em 1336 o ataque foi de Ludwig da
Baviera. Na Guerra dos 30 anos (1616-1646) o mosteiro foi arrasado
pelos suecos e franceses e em 1710 pelos austríacos nas lutas pela
sucessão do trono espanhol.
A Lei da
Pureza (Reinheitsgebot) da cerveja, promulgada por Guilherme IV, duque
da Baviera, em 1516 e que rege a produção das melhores cervejas (e
respeitada até hoje na Baviera) determina que a cerveja deva ser
produzida tão somente a partir de malte de cevada, lúpulo e água. Na
época não se identificava o fermento (Sacharomyces cerevisae), depois
reconhecido e naturalmente acrescentado à lei. A única exceção
permitida é a do uso do malte de trigo, se o processo for para a
cerveja de alta fermentação.
O que as
invasões, incêndios, terremotos e guerras não conseguiram em 1000 anos,
o governo da Baviera conseguiu em 1803, com uma "canetada", estatizando
a cervejaria de Weihenstephan e supervisionando sua produção. Em 1895 o
estabelecimento passa à Academia de Estudos de Cervejaria da Baviera,
absorvida em 1930 pela Universidade Tecnológica de Munique.
Atualmente,
a cervejaria, estatal, com a Universidade Tecnológica de Munique, é a
referência maior, o mais reputado centro de estudos e formador de
"mestres cervejeiros" para todo mundo.
E tudo começou em 725, com Cornerstone Weihenstephan e 12 companheiros. Apenas 13 séculos de cerveja.
1- Paula Santos, S. — Memórias de Adega e Cozinha, SENAC, 2007, p.65 2- ibidem 3- Seidl, C. — Conrad Seidls Bier Katechismus, Franz Deuticke Verlag, 1999, p.160. 4- Paula Santos, S. — Vinho e História, DBA, S. Paulo, 1998, p.219.
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